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fontes de inspiração

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abrir abril, esquecer a liberdade


por norma não escrevo sobre os assuntos correntes, os que estão em voga, como as comemorações por exemplo, tudo para não me deixar influenciar pelas inflamadas opiniões que se vão lendo aqui e ali, quase todas elas maniqueístas, propondo-nos que nos posicionemos de um dos lados da barricada.
mas não posso deixar de referir o que penso sobre o 25 de abril, ou melhor sobre as suas consequências, pois o dia da revolução em si parece ser considerado um dia enorme pela maioria dos portugueses.
em primeiro lugar, ,escrevo sobre isto porque me encontro a um passo de deixar de acreditar por completo nesta democracia, por causas que se prendem com o crescente sedimentar da ideia de que esta classe política já não serve. há demasiados exemplos de que a falta de ética se tornou aceitável, que os interesses comuns são deixados de lado, e que a cada passo somos chamados a resolver os problemas criados por esses decisores.
[lembro-me de um episódio em que o povo foi chamado a trabalhar a um domingo para ajudar o estado a sair da bancarrota. ao que parece um dos ministros fugiu com esse dinheiro. esta história provavelmente inventada para camuflar o fracasso da medida, é sintomática e nós devemos admitir que o estado em que o país se encontra é também nossa responsabilidade.]
e em segundo lugar escrevo porque me assaltam reminiscências do passado que me arruínam com a certeza de que não há esperança. ver as novas imagens de salgueiro maia (há dias passadas num canal) ver o homem simples, o rosto que prova que a revolução fracassou no sentido primordial de equilibrar as classes, faz-me pensar que ainda haverá homens com esta genética. acredito piamente que um dia surgirão novos homens que saberão honrar os cargos que ocupam, homens - ou políticos quiçá - que farão nova revolução "mas não para ter o poder" (salgueiro maia), homens credíveis com valores da promoção da igualdade, homens que saberão responsabilizar os cidadãos pelos seus actos.
não fossem estas imagens de salgueiro maia e faria o que se fez na madeira, passar ao lado de tanto alarido numa comemoração da derrocada da democracia.

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poesia - um canto do fontanário
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VI
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memória de aroma
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ontem como hoje é evidente
que me esqueço das palavras certas,
as que te diria sério ou a rir
e as que te dirá o tempo com mais certeza.
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ontem como hoje iludo o tempo tenaz
o que me agarra com cordas quando não estás
nem me solta tão pouco quando me assombra
a ideia da tua ausência.
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ontem como hoje é evidente
que me enternece a memória do aroma
da tempestade revoltada que se esmorece
na tua pele e no teu sorriso-núvem.
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ontem como hoje engano o espaço intermédio
o dia lenga-lenga (esqueço-me) e a noite,
sou destro no passo apressado para a sombra
e encosto-me na imagem de um espelho da rua.
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ontem como hoje é evidente
que a paixão se tornou um corte que teima
em cicatrizar atolado de medo-fantasma,
ou numa toalha que se entende na mesa vazia.
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ontem como hoje atalho por entre ruelas
(nunca a correr porque me atrapalha a calçada)
a procurar uma morada de silêncio
onde as palvras susurradas serão silvos certeiros.
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ontem como hoje é evidente
que não sei tirar da poesia o brilho
nem pintar a minha fraqueza, tu.
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releia ( I - II - III - IV - V - VI)

fontes de inspiração

as cidades e as terras
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VII

porto
em múltiplos de mil palavras


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o porto quando se multiplica em multiplos de mil, as palavras que nunca chegam por se alongarem em demasia. as imagens destituídas de arranjos metafóricos. os olhos desnudados. uma visão renovada e intimista. esta minha descoberta que partilho.

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literatura fontenária do mês
VII (1ª parte)

anáfora

ana salomé


"todos somos os livros que alguém
deixou por abrir." (pp.21)
1 O TEMPO DOS POETAS

Solitariamente, todos os poetas têm de fazer destes dias o tempo da poesia. Não esquecer os traços azuis que o mundo ainda lhes oferece e que eles devem mostrar a todos sem indecisão. Lavar as mãos com as águas frias das palavras e encostarem-se ao peito uns dos outros è procura dos seus corações. Mesmo que os prédios cresçam como as flores que nos restam. Mesmo que os discursos amachuquem os mais sensíveis. Solitariamente, os poetas não podem esquecer quem são.

anáfora (pp. 35)


digamos que prefiro escrever as crónicas ao sol. na esplanada. corro o risco de um dia me faltar a inspiração e não ter matéria para publicar (nem tempo para resolver esse imbróglio). felizmente o mundo dispõe de milhares de imagens e vozes ocultas que nos anunciam palavra e poesia, basta que as saibamos ouvir.
hoje ensaio o que passei horas a pensar, falar sobre a "anáfora" da ana salomé. esta primeira parte da análise (a segunda fica para a próxima semana com a obra "odes") apresenta-nos uma série de textos que resultam de uma visão peculiar da autora. aos seus olhos o mundo é descrito em camadas atmosféricas, como se pudéssemos viver realidades diferentes, sobrepostas, como se os corpos pudessem tocar a metafísica, como se os corpos fossem por vezes imateriais, infantis, puros, esventrados de maldade. mas para falar da sua escrita eu sinto-me inibido, é que " A vida torna-se-me imprecisa como quando a língua entaramelada na boca quer falar, só não sabe que palavras." (pp.31)
Parece-me haver uma diferença marcante na poesia e nas palavras dos escritores. pelo menos uma fenda identificável, uma clivagem marcante. julgo que há um antes e um depois da crença. no caso da ana salomé, esta obra é toda vertida de sentido positivista (não que a segunda apresente a diferença referida, mas há mais linhas apontadas à descrença). a silhueta da obra é carregada de princípios activos capazes de serem uma panaceia, principalmente para os delatores da paixão, "Amar-te é amanhecer-me da cintura para cima." (pp.24) Neste sentido só há um afloramento nubloso de que discordo (então menina, isto diz-se?) "Há ainda quem não saiba que não há nada em que acreditar." (pp.24)
digamos que gosto de escrever as crónicas ao sol. as palavras ficam mais limpas. as ideias enxaguam-se num processo de lavagem calmo e pacífico. posso até ver mais claramente laivos desta pacífica transposição das letras para o papel nas palavras da ana, "Abri a boca e saiu de lá um poema. Um poema teu que foi um beijo na testa." (pp. 15) quando a ana me ofereceu as suas duas obras, disse-me, na nossa conversa sobre a poesia, que a escrita dela não seria bem o meu género. Gosto da humildade, mas a modéstia veste-lhe mal neste caso. a minha poesia de eleição é a que diz coisas destas,
"Num desses dias fizemos amor - duas crianças com corpo de sol envoltas no escuro -, e dormimos abraçados como se fossemos o boneco um do outro." (pp.14)
acredito numa forma de vida que pouca gente advoga para si. e ao ler estas palavras sou tentado a adiar a falência desse sentido, sou obrigado a aceitar prolongar a minha luta, evitando a minha própria descrença no mundo. há lições neste pequeno-grande livro. e há frases que não se podem esquecer, "o amor é inventarmo-nos todos os dias." (pp.42)
digamos que gosto de escrever as crónicas ao sol. na esplanada. nestes sábados luminosos as palavras ficam mais limpas, como as da ana, " E depois disto tudo não sei se hei-de ficar triste ou não aos domingos." (pp.32)

2 SUSTO DE GIRASSOL

Preciso de ti para um poema
Vasco Gato

Era assim que no meio de uma página em branco eles se encontravam e faziam os primeiros pedidos da manhã. Ele, trazia-lhe as mãos abertas e um coração-de-escrever. Ela, um susto susto de girassol ao peito. Ambos se admiravam num quase quase confronto de nuvens. As dele e as dela. Ela trazia todos os dias um diferente vestido de nuvens, azul, da cor verdadeira que ele tanto lhe queria ter. A tua cor, o azul do teu rosto quando anoiteces. Pedia-lhe. E chamava-lhe amor como quem atira palavras aos pássaros. E ele dava-lhe os pássaros e também o mundo. Inteiro, pedia-lhe. Preciso de ti com estas mãos com que o vento desfolha cabelos. Os teus. E foi então que ela entrou no poema, com a mansidão de um gato.

anáfora (pp. 23)

fontes de inspiração

à conversa com a ana
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(a nossa autora do mês respondeu positivamente ao nosso desafio. respondeu a umas questões com a mesma simpatia de sempre. aqui fica a crónica de sábado, com o atraso justificado pela qualidade das respostas)

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Fontes - Uma lisboeta em braga. Qual a tua visão sobre braga?
Ana - Primeiro, era só cinzento e a música melancólica dos sinos. Um primeiro ano de agonia e de espera. A seguir, o lugar estranho do amor. Depois, foi sendo a minha segunda cidade, com os seus defeitos e as suas virtudes, com as pessoas de que já não posso nem quero abdicar e que fazem parte da minha vida, onde me sinto recebida como se estivesse em casa.

Fontes - Quando escreves,é mais inspiração ou transpiração?
Ana -
Julgo que só inspiração, embora a inspiração seja das coisas mais trabalhosas que conheço.

Fontes - Como sentes quais os temas importantes para tratar na poesia?
Ana -
Os estudos literários tematológicos resumem tudo em amor e morte. Até agora, são essas as minhas obsessões.

Fontes - Quando surgiu a ideia de publicar?
Ana - Numa conversa emocional dentro de um carro estacionado em frente ao mar a beber um pacote de leite com chocolate. Na altura, precisava de uma prova de fogo, de me espalhar na invisibilidade do vento para que alguém que tivesse de me ouvir, me ouvisse. A 'Fábula da Solidão' explica um pouco melhor isto que não estou a conseguir dizer.

Fontes - Qual o caminho que queres percorrer na escrita, ou o legado que queres deixar?
Ana -
Não tenho envergadura poética nem intelectual para deixar legados, nem mesmo vontade que isso aconteça no sentido de entrar num cânone, seja ele qual for, mais ou menos conhecido. É até absurdo pensar nesses termos. O meu legado fica só com as pessoas com quem me cruzei afectivamente, saiba eu ou não desse encontro. O sangue que recebi à nascença corre também nas veias dos meus amigos, que é o mais importante para mim. O caminho da escrita é esse trilho de sangue.Quando deixar de unir para passar a desunir, é porque será chegada a hora do silêncio se ocupar de todas as palavras.

Fontes - Qual a importância da crítica para ti?
Ana -
Eu gosto de ler um bom ensaio, uma opinião bem formada, uma resenha, o que seja, que me ponha em contacto com outra perspectiva de uma obra que li ou que me forneça pistas que me façam querer ler um livro que, de outra forma, me poderia passar ao lado. A crítica literária, que passa muito por ser um discurso indirecto com o interveniente comum ao do discurso directo - o leitor -, pode ser uma paixão tão forte como a própria criação literária. Esta viveria sem a outra. Mas essa outra não viveria sem a primeira. Só tendo consciência disto é que se pode estabelecer uma relação salutar entre ambas, corajosa, em vida do autor ou da autora, e absolutamente necessária, na morte.

Fontes - Dedica um poema teu aos nossos leitores.
Ana - Dedico o primeiro verso com que abro o primeiro livro - eu conheço a poesia pelo cheiro -, pois espero que todos nós, enquanto humanos, a reconheçamos tanto no mais pequeno como no mais grandioso momento das nossas vidas. Ela está lá, sempre.

Obrigado Ana.

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as cidades e as terras
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VI

madrid
polaroids monocromáticas
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[ruas]
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nas ruas principais, como é o caso da gran via, pulsa uma corrente viva que não quebra, uma diluída azáfama cosmopolita que nunca se acalma, teimando em altas horas da madrugada em mostrar-nos que as grandes cidades têm uma vida própria. é como se, sem esta gente nas ruas, outra forma de correria endiabrada se apoderaria do seu fluxo sanguíneo. e as luzes da noite, quase sempre aciduladas pelos néons publicitários, são puros delírios visuais, que muito dificilmente se definiriam em palavras.
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[ruelas]
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no interior das artérias - não muito longe das ruas principais - os bairros grafitados, onde as diferenças sociais chocam a paisagem, é mais fácil encontrarmos as histórias rocambolescas e as incríveis maquinações do destino. aqui as minorias estão na sua vida como peixe na água. o chinês nas suas loja de conveniência, labuta numa esquina escura, sempre com um ar desconfiado; o sul-americano (normalmente peruano) transporta um carrinho de mão carregado de cerveja e vinhos, entre o armazém perdido num beco e o restaurante;e o espanhol normalmente antipático, desespera pela hora do fecho para fugir.
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[ruas - 2]
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na rua onde nos instalamos, coabitam os extremos sociais. um restaurante de luxo tem sempre à porta duas ou três prostitutas e um travesti. uma loja de roupa e calçado requintado, fica paredes meias com as casas onde o sexo é cobrado sem impostos.
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[metro]
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estação de metro goya - serigrafias com desenho populares do autor repartem a atenção dos turistas com os relógios em decrescente contagem. parei a apreciar os temas. lutas do povo. retive mais tarde em visita ao museu do prado, a obra inexplicada e tenebrosa da sua fase negra. aqui a arte espanta pela exposição e destaque que tem. e quando entras na carruagem do metro, vendo que quase todas as cabeças pendem sobre os livros, percebemos o porquê.
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[ruas - 3]
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depois vem a noite. atravessamos a correr a praça de espanha. sem motivo, não temos pressa. parámos junto do multibanco, saltando à vista mais um motivo para pintar um retrato desta cidade. lado a lado o símbolo do capitalismo e o da miséria, os dois lados da mesma moeda. indiferentes, dezenas de pessoas levantam as notas de 500 euros, mesmo junto a dois mendigos que dormem protegidos do frio por jornais e um saco-cama. é um casal - que igualmente indiferente - descansa de mão dada.
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[metro - 2]
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acendem-se os cigarros e os vendedores ambulantes estacionam nas saídas do metro. por ali toda a gente se encontra para um botellón. corremos o risco de nos perdermos de amores por uma vida assim. quem passou pela universidade sabe. e no mínimo recorta do peito uma ou outra lembrança saudosa. não que me impressione ou me lamurie com o bom passado. nem me impressionam estas acrobacias sociais. a vida desta forma sente-se a dobrar e parece que te imortalizas nos flashes do convívio inter-cultural. não há contudo espaço para pintar todo o quadro monocromático da noite.
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releia ( I - II - III- IV - V - VI)
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fontes de inspiração

literatura fontenária do mês
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VI

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este livro parece-me ter duas questões de fundo mais vincadas na narrativa, a dificuldade de escrever a originalidade com criatividade cativadora, e o amor. parte de uma história de amor meio perdida entre a realidade e a ficção, e segue o caminho de um escritor que busca a história perfeita para o romance perfeito, sendo certo que para mim toda a energia está nessa história de amor. o autor é averso a finais felizes, sente-se permanentemente a luta por mostrar a lógica linear da vida real, em contraposição aos devaneios relapsos do personagem principal no que toca a discursos idílicos.
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tive alguma dificuldade em seleccionar algumas passagens deste livro, tamanha foi a voragem com que sublinhei frases e parágrafos. já tinha referido que o li de uma assentada numa noite daquelas em que me pareceu importante ler sem parar. em boa hora o escolhi da prateleira-lista-de-espera, pois rapidamente me apercebi de que seria fácil terminar a leitura. passei de novo os olhos pelas citações e tive a sensação de que o próprio autor teve o cuidado de fazer deste livro uma enciclopédia de boas escolhas para leitura. ao longo da narrativa, que o autor refere ter sido construída sobre textos esparsos - resultando depois neste arrumadinho romance -, podemos perceber que ler é um instrumento mais importante que escrever. em todo um livro que demorará muito tempo a ser construído, pode surgir uma frase que mudará muito do que pensamos. honra seja feita a quem escreve, publica e não se sente justamente compensado, porque "[...] a necessidade de escrever é, porém, mais imperativa; o desconforto da chuva é mais forte do que o apelo do vento. Talvez uma frase de kafka o explique: "um escritor que não escreve é um monstro que convida à loucura.[...]" (pp. 24)
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não percebemos bem o que pode ser auto-biográfico (e isto é de uma crueldade atroz com o autor - quem escreve sobre livros não deveria nunca misturar estas duas vivências distintas). a invenção do personagem que vai em viagem para áfrica, como se longe de tudo pudéssemos encontrar as histórias num continente que se percebe ser inebriante e ensandecedor a quem o visita, parece ser um íntimo desejo do autor. a fuga ao dia-a-dia acabrunhante para almejar encontrar inspiração para escrever uma vida real mais límpida, mesmo que se perceba na sua visão um realismo clarificador do curso da vida, parece ser um desejo de mimetizar os sentimentos com os lugares.
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depois de ter tomado conhecimento da insolvência da editora de manuel jorge marmelo, fico ainda mais convencido de que o autor tem razão quando diz neste livro, "[...] tal como o personagem principal no seu passeio dominical, talvez acrescentasse que sentir-me um ser humano e dar passeios me parece tão bonito como estar sentado à secretária e ter sucesso a vender livros. [...] " (pp. 85)
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para florear um pouco, acrescentaria que existe um ou outro pormenor de refinado humor nos seus textos, e ainda umas corrosivas opiniões sobre as mulheres "[...] Em todo o caso as mulheres são o que são: aparecem, insinuam-se, metem-se no coração e, em pouco tempo, tomam conta das nossas vidas. Colonizam-nos. Subvertem a nossa natureza e moldam-na de acordo com os seus caprichos. Se somos inocentes e fracos, podem transformar-nos em monstros sem coração. Se somos duros e cruéis, são capazes de domesticar-nos, reduzem-nos a quase nada. Tenho visto vários casos semelhante e foi isto que me tornou desconfiado [...] " (pp. 48). e depois há esse amor nas palavras muito próprias do autor, carregadas por vezes de pouca crença, "[...] Estou hoje convencido de que é impossível ser feliz, mesmo quando se ama muito e se é amado pela mais bela das mulheres [...]" (pp.82)
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contactei o autor, e com muita simpatia me respondeu a 3 questões, sendo que esta obra começou com um blog (cujo personagem principal passou a ser o do livro), e que os textos avulsos ganharam consistência, vindo a tornar-se neste romance. deixo o meu agradecimento publico pela simpatia do autor.
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gostaria que as minhas palavras fossem um veículo importante na divulgação das obras portuguesas, da literatura pouco reconhecida, e por isso espero que o meu contributo possa ser frutífero nessa medida. termino com uma passagem que marca um pouco esta obra, a dificuldade da definição da realidade e da ficção, onde nos meandros das palavras se confundem os misteriosos mecanismos da escrita, "[...] apesar de tudo, eu sei que M. se tem em melhor conta do que aquilo que aparenta; que tem algumas pretensões relativamente aos livros que escreveu e que gostaria de vê-los devidamente valorizados; que se lhes reconhecesse, ao menos honestidade intelectual, empenho e vontade de fazer melhor. [...]" (pp. 77) não terá este meu texto o único objectivo de reconhecer tudo isto?

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releia ( I - II - III - IV - V - VI)

fontes de inspiração

anortopia

ou um ansiolítico apaziguador
[..

está bem, façamos de conta…

façamos de conta que o amor não é compromisso. façamos de conta que o amor não é dedicação, esforço e perseverança. façamos de conta que os meandros do amor moderno, catapultado pelo facilitismo, é que estão certos. façamos de conta que a aparente facilidade de escolha e mudança nos torna mais livres. façamos de conta que nos sentimos felizes com esta posição face ao amor. façamos de conta que não há um historial imenso de aventuras contadas e repisadas e que o amor vingou tal como nos querem fazer passar.


façamos de conta que o maio de 68 e o verão quente de 69, evoluíram positivamente e somos filhos da geração livre. façamos de conta que o amor que nos preenche agora é melhor que o anterior, e, que depois de melhorado, porque é mais fácil e rápido, nos preenche de alegria. façamos de conta que não estamos mais depressivos, mais desanimados, vazios. façamos de conta que não andamos à toa a procurar a definição do amor verdadeiro. façamos de conta que não nos suicidamos porque não entendemos o sentido da vida com esse enorme vazio no peito. façamos de conta que estamos perto do sucesso, mesmo que, passo após passo, caminhemos num chão inerte e infértil.


façamos de conta que o romantismo é lamechas. façamos de conta que a verdade, a sinceridade e a fidelidade, o compromisso, a luta por manter intacto o amor, tudo isso é antiquado. façamos de conta que o destino nos vai cair nos braços inadvertidamente enquanto estamos distraídos. façamos de conta que a internet resolverá os nossos problemas relacionais. façamos de conta que não acreditamos no amor verdadeiro e que isso só nos pode trazer problemas e desilusões. façamos de conta que estamos bem assim. façamos de conta que não vemos a toda a toda a hora a tristeza nos rostos de quem não entende o que falta na sua vida. façamos de conta que de noite, ao deitar na almofada, não ouvimos um ensurdecedor eco das nossas frustrações. façamos de conta que quando acordamos não reverbera incessantemente no interior dos ouvidos a decadência das nossas forças.


façamos de conta que não ouvimos os alertas. façamos de conta e deixemo-nos estar sentados depois de ler estas minhas palavras. façamos de conta que eu próprio ao escrever isto não sei o que digo. façamos de conta. uma vida de faz-de-conta. porque, afinal, se tudo isto não passa de uma fraca encenação, então o faz-de-conta é um bom personagem para interpretarmos em palco.


enfim, façamos de conta.

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insprirado num artigo de mário crespo, que podem ler aqui.

fontes de inspiração

poesia - um canto do fontanário
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V
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o teu corpo-pátria
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para a daniela
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estranho ver-te entregar-me o
teu espelho, invertendo-me o real.
a tua guerra termina na hora em
que destróis esse muro agreste,
chorando uma morte que finalmente
se enterra em ti.
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queria partir hoje em busca desse
teu corpo-pátria, inventar
uma bandeira e um hino, cantar
democracia plena e restaurar
a liberdade na tua pele.
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estranho ver-te entregar-me as
fronteiras da tua carne arriscando
a minha invasão.
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(eu sei que nesse país não
há lugar para lamúrias)
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releia ( I - II - III - IV - V)

fontes de inspiração

considerações metafísicas de um esteta diletante

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" mais do que uma incerta cobardia latente de encarar a verdade olhos nos olhos, isto é, que estamos inapelavelmente sozinhos no mundo - nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos, por mais pessoas e sentimentos que nos rodeiem, amparem, iluminem nesta escuridão existencial, a escuridão da nossa perenidade, mortalidade, inconsequência temporal [...]"
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quando procuro escrever sobre brasas realistas, algo que ainda não afinei muito bem porque há muito que me abstenho de confrontar as minhas angustias com os factos reais - procurando mais na ficção uma confrontação subreptícia, ludibriando o sub-consciente de forma sistemática- arrisco de certa maneira passar um discurso que não é coerente, ou não é bem afirmado, ou tem falhas argumentativas, ou enfim e quanto muito, nem sequer o sinto meu. isto não é um problema, na verdade é lidar com a realidade como se ela não fosse importante. o problema da morte é um dos que atormenta muita gente, e eu não sou excepção.
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hoje queria falar da morte de uma perspectiva muito clara, os últimos dias da vida de um homem. de algum modo estaremos sozinhos no nosso consciente e ninguém nos poderá acompanhar no último suspiro. estaremos despertos o suficiente para perceber o fim de tudo o que se construiu como eterno, os dias que nascem nos relógios, estaremos de olhos abertos e que sentiremos nós no eclipse lento dos orgãos vitais? que agonia se irá apoderar dos tecidos necrófilos antes da síncope fatal?
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[a realidade de que vos queria falar é a de um quarto asséptico, riscado pelo tempo e pelo arrastar das doenças nas paredes. e de um homem que em três dias desistiu de se manter ligado ao cosmos e à terrena existência. o sr. antónio foi acometido pelo início da falência letal dos rins, e depois tudo o resto descamba lentamente, até a respiração se tornar difícil, assistida, o fígado já não vai depurar medicação, e por fim o coração parará. a questão é que vemos a vida nos olhos desta gente e pensamos que há uma luz que não se apagará, tal como em todas as pessoas que gostamos. vemos os esforços e a dedicação para que se melhore o estado geral da saúde, mas também começamos a perceber os nossos próprios limites]
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depois há a possibilidade de nos tornarmos demasiado obcecados com essa limitação. acredito que a relativização dos grandes problemas é a solução para uma vida menos carregada com o medo do fim. se não vejamos o que o nosso caríssimo comparsa disse há dias neste blog, "[...] Que tal, um dia, quando chegar a altura, e se tivermos a sorte de o percebermos, podermos chorar todas as dores do mundo, lamentando o que já não vamos fazer. Apenas isso. Será bem melhor do que sentir o frio dentro do corpo e nem sequer sorrir: pensar apenas que a vida foi uma missão cumprida, e que por isso merece apenas singelo e cordato registo. "
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quero acreditar que a realidade se encarregará de nos mostrar que o tempo que ainda nos medeia do fim, é o exacto e o necessário para tudo o que ainda precisamos de viver. a vertente metafísica [não a da discussão da alma e do céu] irá completar-nos com a saciedade das vivências, bastando contudo que estejamos confortáveis e acreditemos numa alegria esponjosa, numa realidade sumarenta que tem todos os ingredientes necessários.
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[o sr. antónio faleceu às 3h30, na cama 3 do sétimo quarto]
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esta é a crónica da semana anterior que ficou por publicar

fontes de inspiração

as cidades e as terras

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V

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o parque urbano, o violino e o caneiro
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[escrevo-vos a partir da cidade onde deveria estar. não estou fisicamente, bem entendido. estou lá com toda a minha omnipresença. demasiado longe destas teclas. não me interpretem mal. é de lá que quero escrever porque assim o poder da imagem virtual assume proporções mais consentâneas com a beleza da cidade]
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não estou lá. por isso abri um livro esta noite [*], disposto a ler de uma ponta a outra e a procurar nele a solução para este problema. escrevinho apontamentos como se fosse possível enganar as esquinas daquelas ruas estreitas. como se a chuva fosse parar a qualquer momento e ao dissipar-se a névoa baixa e rasante, me aperceba que estive lá verdadeiramente o tempo todo.
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[visitar com vontade uma cidade é quebrar a regra básica dos dias, amarrar as sensações que se anunciam na arquitectura, esquecendo o relógio, esquecendo o dia, arqueando as sobrancelhas perante as novidades. não é que seja nova esta cidade para mim, mas há muito que a não via deste anfiteatro. está mais verde a água do lago, e o espelho dilacera a sombra com as ondulações com que o sol vai preenchendo o fim de tarde]
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o romance é fabuloso, de ritmo célere, convidativo, alucinado - não tanto ao jeito de borges como esta crónica começa a parecer -, mas vai colmatando o facto de eu estar aqui, longe da cidade onde deveria estar. arrisca um caminho tortuoso, onde se confunde o real e fantasioso, onde narrador e personagens são teleportados de diferentes países ao ritmo necessário da narrativa. quero crer que não me está a afectar os sentidos, e que não escreverei aqui nada que me faça duvidar da minha lucidez.
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[recordo porventura melhor o rio ave. hoje está mais limpo, um tanto ou quanto por minha culpa também, pois me empenho todos os dias para isso. há pescadores perto do caneiro (é um açude ali perto) e isso é a prova de que há vida de novo no rio. chego a invejar esta capacidade da natureza se regenerar tão rapidamente, tal é a minha vontade de arrancar tudo o que sinto e sei, tudo do que quero esquecer como certeza inabalável. estou de novo lá com toda a minha força imagética. que pena que cada um não possa estar onde quer realmente estar]
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o livro caminhou para o fim naturalmente. é fácil quando nos prendemos a ele, esperando castigar o corpo com horas a fio ligado a duras metáforas ou realidades complexas. os olhos a pesarem e eu a expurgar os meus males naqueles desenhos de uma áfrica inventada. estava convencido de que no fim estaria pago o meu pecado, o de não estar naquela cidade.
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[vou terminar a minha crónica na cidade onde deveria ter estado. prefiro terminar com o sol abrasador de junho, vestido a rigor para aquele dia. entrar de novo na igreja fria. respirar fundo a decrepitude das talhas douradas, a mistura entre incenso e cera derretida. é aí que os violinos estarão a soprar aos meus ouvidos o encanto cénico de uma cidade que não se pode sentir pela arte de rua, mas posso guardar no recanto fraco do meu coração.]
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(livro do mês de fevereiro deste estimado blog - leiam amigos, leiam que é uma pérola)
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releia ( I - II - III- IV - V)

fontes de inspiração

literatura fontenária do mês
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V
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falar sobre uma obra de poesia completa ou quase completa, parece à partida difícil, mas não é. não é porque não sou perito na matéria, não é difícil porque não faço análises eruditas, não é tarefa árdua porque isto não é uma crítica literária, no fundo, e em suma, resume-se a uma definição básica, ou se gosta ou não se gosta (o que, já de si parecendo simples, não o é).
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estamos na presença de uma obra cuja edição da cosmorama abrilhanta pelo cuidado estético com que é apresentada (aliás é política da editora esse trabalho meticuloso). estão coligidos aqui nove livros (incluindo a obra "bruno" editado em espanha numa edição bilingue, e algo difícil de encontrar por cá). depois acresce outro aspecto que dá maior importância a esta edição, o facto evidente de que a maioria dos títulos do autor publicados na quasi edições estarem esgotados. (desconheço se por quezílias públicas, se por outro motivo alheio à minha compreensão). refira-se também que faltam nesta antologia pelo menos dois livros publicados pelo autor. "estou escondido na cor amarga do fim da tarde" (campo das letras) - obra esta que tenho e li; e ainda a mais antiga de todas cujo título e editora me escapam por completo. são renegadas pelo autor por terem sido escritas numa fase muito prematura da sua evolução como poeta, denotando-se à distância uma diferença qualitativa em relação ao que foi editado posteriormente. compreende-se. até pelas palavras que se encontram na nota do autor neste livro, " [...] porque não conservo senão uma vontade de futuro, uma necessidade de continuar fazendo, mais do que me deixar fascinar ou sequer convencer pelo que já fiz. [...]". há sempre omnipresente esse trabalho se sapa em todos os poetas, a necessidade da procura da perfeição e decepação das palavras e versos a mais, " [...] e, se pudesse, haveria de os reescrever e redizer um a um, verso a verso, até à náusea, para os aproximar sempre daquilo que sou hoje e daquilo que quero hoje. [...]".
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estou convencido de que é possível ler quase tudo o que se faz na poesia, e só então nos decidirmos pelo nosso gosto e estilo. esta obra mostra que pode haver correntes e caminhos completamente diferentes dentro de cada autor. parece-me ser uma obra obrigatória para os amantes da literatura e da poesia em particular, onde se podem apreciar algumas surpresas agradáveis, ao mesmo que tempo que se pode ir bebendo estas palavras no ritmo e tempo que acharmos mais conveniente.
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é esse o segredo para apreciar a poesia, ler como um processo de comunicação externa em que o autor, leitor e texto se confundem, e mesmo sendo entidades independentes, essa mescla em que se tornam mostra a absoluta indefinibilidade dos limites de cada um.
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deixo-vos um trecho do poema "uma língua para a solidão e para a perplexidade" da obra "pornografia erudita", uma citação que é a prova de que o romantismo é possível (o eterno melómano da sonoridade poética), mesmo que só em palavras,
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" [...] vou amar-te eternamente
se a perplexidade puder ser uma forma de amor. procura
em mim uma possibilidade de comunicação. procura-me.
se não te ouvir toca-me, tu tão bela, e espera quanto
for preciso. hei-de manifestar-me, mesmo que apenas
para lembrar que o teu amor é também a minha
mais certeira morte e o caminho para lá chegar
seja a invenção de algo tão preciso como uma
palavra nunca proferida." (pp. 68)
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post scriptum, não podia deixar de dizer que foi com um enorme prazer que ontem conheci pessoalmente os ilustres companheiros deste blog.
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releia ( I - II - III - IV - V)

fontes de inspiração

este fim-de-semana tenho direito aos meus 15 minutos de fama. como não tive tempo de ler e analisar a obra aconselhada este mês. deixo-vos dois inéditos que a mais vocês não são obrigados.
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1#
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queria expurgar
este saber que se apoderou
de mim.
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e pelo exposto poema se
vê o mal que ele
me queria.
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2 #
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deita-te amor
no colo deste povo
que um dia ergueu da terra
a chama que consumiu o
poder de deus.
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deita-te amor
no meu dorso cinzento
onde a espera é ao sol
fechada na esperança do
regresso dos largos destinos.
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15/12/2008

fontes de inspiração

poesia - um canto do fontanário
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xica
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a tua gata tem dois corações,
vê-se pelo olhos a transbordar de
arrastados miaus, sedentos de
mão no pelo.
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a menina da gata tem dois corações,
vê-se pelo olhar a tranbordar de
arrastados desditos, sedentos de
mão na pele.
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tanto coração junto estorva-me a lucidez
e acaba por derreter a pedra de que me
visto.
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já eu, tenho três corações, e cada um deles
bate devagar sedento de uma mão que os agarre, e
não os sentia bater desde o desembarque do
infinito nestas margens que agora se diluem de novo.
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releia ( I - II - III - IV)

fontes de inspiração

as cidades e as terras

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IV

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a cidade dos sonhos
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hoje vou escrever sobre uma terra que não conheço. nunca lá estive mas imaginei um dia ser diferente de todas.
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não estou a enganar ninguém, ela está no mapa, a uma distância razoável de braga, mas como nunca lá estive apenas posso confiar no meu convicto sexto sentido. julgo poder um dia vir a ser a melhor cidade do mundo.
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esta cidade é enorme em territórito, mas lá vive com pouca gente. vivem todos de bem com a vida. não falta nada a ninguém e o sistema é tão perfeito que não tem presidente de câmara ou junta. o padre faz corpo presente porque ninguém tem pecados, e mais parece o caseiro da igreja. nas ruas o trânsito é calmo, sereno, e mesmo assim ninguém se atrasa. o melhor mesmo é que ninguém morre nesta terra abençoada por um deus perfeito. nada vive sem a beleza da perfeição da sua obra.
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o único cemitério que existe é no alto da colina, onde passa um riacho. as pessoas que aqui vivem, deixaram de acreditar em sonhos. assim, de cada vez que se vê alguém subir pelo caminho que vai desembocar na ponte sobre o ribeiro, sabe-se que será mais um sonho a ser sepultado.
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o dia em que imaginei esta terra, sentei-me a pensar que seria a terra perfeita, e que onde não havia posto da gnr (sim, porque onde não há crime, não se necessita de agente da ordem), pensei que poderia viver em paz, sem o medo da morte. o preço é enterrar os sonhos. bem fundo.
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segundo se consta muita gente abandonou a terra porque a alegria do risco, da aventura e das saudades do tempo em que o onírico fazia parte da vida deles, os levou a uma loucura saudável. por momentos acreditei ter encontrado a terra de deus, a terra dos sonhos.
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esta manhã, depois de desfazer a barba, lembrei-me de voltar a procurar a terra no mapa. e lá continua. decido deixá-la descrita para que um dia saiba que desisti dela. para que não me chamem louco porque ela existe. e para o caso de haver alguém que queira vender os seus sonhos. eu já não a quero conhecer.
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é que há sonhos que não merecem ser desenterrados.
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releia ( I - II - III- IV)

fontes de inspiração

fontes de desinspiração
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hoje estou desinspirado. hoje estou constipado. hoje estou meditativo.
hoje escrevo a última do ano.
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estou em balanço deste tempo em que escrevi as crónicas. estou em avaliação pessoal. espero pelas vossas sugestões, para melhorar os textos que aqui deixo. e agora volto para os meus lençóis. não sem antes desejar a todos os visitantes do fontes do ídolo, a todos os leitores assíduos e amigos, e em especial, a todos os companheiros do blog um excelente
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Ano de 2009

fontes de inspiração

literatura fontenária do mês


" [...] o que faz a grandeza deste livro singular
é a sua aparente renúncia a querer ensinar ao
mundo aquilo que o mundo só pode aprender
por si próprio. [...]"
antónio mega ferreira (in n.s. nº 149 - pp.57)
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prometi que iria cumprir uma tarefa. no dia em que saramago morrer vou recomeçar a ler a sua obra e analisar livro a livro, as passagens mais marcantes, retirar as melhores citações, as melhores reflexões, tudo o que for de interesse público, e irei divulgar os seus textos. porque se tornou uma paixão literária muito forte. e eu sou obstinado.
o paquiderme oferecido pelo rei de portugal (d. joão III) ao seu homólogo da áustria (maximiliano) , ilustre terra que saramago faz questão de castigar em algumas partes (e que eu corroboro, apesar de só conhecer a capital), sendo que os seus habitantes têm tanto de cultos como de antipáticos, vai fazer a viagem para ser entregue ao seu novo dono. esforço-me pois por deixar o livro de saramago falar, porque é triste perceber que o escritor português, tão maltratado em tempos (relembro a fase do lançamento da obra o evangelho jesus segundo jesus cristo; obra aliás que todos deveriam ler para perceber a grandeza da imaginação humana) dizia então, que é triste perceber que ele terá pouco mais a dar aos seus seguidores (eu e mais uns poucos, não sei bem quantos, mas nunca conheci ninguém que tenha lido uma das suas obras).
considero estar de tal forma bem escrito, que mais poderemos dizer que é um exercício de ensaio sem necessidade de correcção, escreve com a leveza com que a ideia desliza para o papel, porque se apoderou dele aquilo que eu procuro na minha escrita (para além de expurgar as tentações auto-biográficas) que são as certezas aliadas à ficção. os valores permanentes. virão umas vozes críticas que eu terei muito gosto em retorquir antes delas se fazerem ouvir. diz o miguel esteves cardoso, na mais que propalada e referenciada excelente entrevista à revista ler,
" Sobre toda a gente que morava numa ditadura vão arranjar histórias. [...] Mas isso pelo amor de Deus, não tem nada a ver com a obra." (vão lá ver se quiserem e leiam o resto, pp. 34)
é uma tendência natural que temos de denegrir o que é português e bom. não percebo. ultimamente só tenho lido boa prosa e poesia em português. a viagem do elefante é também um conto que esplana o que de melhor pode haver nos homens. e o pior em contraponto, "Somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades." (pp. 147). talvez por isso sejamos uma espécie de " [...] frustrados como aquele espectador que seguia uma companhia de circo para onde quer que ela fosse só para estar presente no dia em que o acrobata caísse fora de rede. [...] " (pp. 169)
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esta viagem é uma desculpa para criticar a estrutura da sociedade, como as pessoas se envolvem, como as aparências podem cingir as liberdades. ao ler percebemos que saramago sublinha a incongruência desses lapsos ancestrais. a estupidez humana que diminui um simples soldado, ou agricultor pela falta de escolaridade (não de educação), quando podem ser poços de sabedoria e ensinamento, é algo que só tarde ou nunca aprendemos. a humildade de reconhecer a necessidade de tratamento de igualdade, os valores de partilha, sentimentos nobres de entre-ajuda, no fundo o que todos sabemos ser necessário, mas insistimos em esquecer.
não sei se não devemos mesmo sublevarmo-nos perante o que se considera inevitável, "não discutas com quem manda, subhro *, aprende a viver." (pp. 52) e não vejo aqui nada que possa ser defendido como sendo de costela esquerdista, quem me conhece sabe que as minhas opiniões são pouco enquadráveis, e eu defendo o que penso. ler é para mim um exercício de libertação ou de experimentação da liberdade. e aconselho por isso mesmo. sem tabus nem ideias coarctantes.
por isso, escreve mais saramago. escreve para os ímpios que amanhã, depois da tua morte, te elevarão a um patamar que em vida nunca o farão. nós esperamos por mais, porque "o porvir, como os antigos diziam, e acreditavam, só a deus pertence, vivamos nós o dia de hoje, que o de amanhã nunca se sabe." (pp.246) esperando que nos deixes esse legado.

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* subhro (tratador do elefante)

releia ( I - II - III - IV)

fontes de inspiração

poesia - um canto do fontanário
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se deus contasse
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como se de uma loja maçónica se tratasse
os escudeiros de deus sentaram-se numa mesa
redonda, longa, estreita, pesada. forte . dura .
sem papéis na mesa discorre-se sobre assuntos
penosos, idosos, rudes, redondos. esquecidos.
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como se a negociação fosse penosa, deus, a um
canto, não fala. em verdade a espaços tosse, e
as armas com que deus luta na terra,
(os condestáveis)
suspendem-se temerosos do veredicto.
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não sei que dia sugerimos ao inferno para descer,
se na manhã serena, se na noite robusta,
que venha com data marcada e nós o receberemos,
num confronto letal, directo, obscuro. mortal .
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tudo por esta luta.
se deus soubesse fazer contas já nos teria somado
desde a criação da beleza, o dia em que a minha voz
tocou os olhos serenos da tua imaculada beleza.
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já não sei se vale uma luta assim, tirania
com que me rasgo, estropio, dilacero. destruo .
nem sei se deus contará com a divisão que fiz
dos meus medos, que espalhados na mesa não sabes
subtrair.
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uma mesa oval para dois, um amor redondo afinal.
sem negociação adiantada. e o inferno com dia marcado.
se ao menos deus soubesse multiplicar o desejo.
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releia ( I - II - III)

fontes de inspiração

as cidades e as terras

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III

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évora - no olimpo dos deuses

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subimos pela manhã ao único monte que existe em todas as redondezas. o alentejo assim vestido de uma intensa vida modorrenta, modera os excessos de calor, afunila o horizonte que se vai perdendo de vista e retrata a vida dos sobreviventes da estiva. subimos ao único monte pela única estrada que lá subia. muito devagar como manda a boa educação dos forasteiros.
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há uma professora catedrática que vai explicando os pormenores técnicos e cientifícos desta visita. ao que parece é um dos primeiros projectos de siza vieira, um bairro habitacional construído no início dos anos 80. está degradado como tudo o que vai avançando na idade. e cheio de erros de concepção, nada como perceber que a genialidade exige trabalho e dedicação.
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não me preocupam os erros das pessoas. mesmo que não seja digno do nome siza vieira, a obra está ali, e ali vivem dezenas de pessoas que disfrutam duma paisagem irrepetível. procuro desviar-me um pouco dali e deparo-me com um cenário maravilhoso. do alto deste monte vemos toda a cidade de évora, toda a muralha circundante, a cidade intra-muros e ainda as novas urbanizações (não muitas que o partido comunista não deixa que os exploradores do mercado liberal se apoderem desta beleza).
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a muralha define os limites, o cerco onde viviam muitas vezes estas pessoas. foi ali que se aplacou a investida do rei português pela conquista do reino. d. sancho I invadiu as sombras da cidade expulsando os árabes que nos deixaram esta excelente arquitectura. a muralha continua intacta em quase toda a sua extensão. depois circula pela cidade um engenho que abastecia água a toda a população, o aqueduto.
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o sol abata-se sobre os pilares resistentes do templo. poucos turistas ocupam as perspectivas sobre o monumento. vão repetindo os cliques procurando recalcar a memória futura. os clichés nunca se cansam de repisar o rolo (sim naqueles anos só existiam máquinas de rolo).
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sei que permaneço inerte enquanto vibram em mim arrepios perante os cenários mais estranhos. uma capela repleta de ossos parece-me macabro. desenterrar as almas de deus - ou o que resta delas - e ornamentar uma capela pelo simples sonho de um frei não me parece que fosse bem recebido pela inquisição (vale ao frei que a evolução do pensamento fez esquecer o rigor da obediciência católica)
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estou cansado (não de escrever esta crónica) estou estafado deste passeio e é a minha hora de descansar na praça do giraldo. nestas esplanadas escrevinho coisas que acabarei por perder com o tempo. os cadernos das viagens são sempre fieis depositários da realidade vivida, mas não do que existe. de cada vez que lá voltei vi uma cidade diferente, ou eu é que voltei marcado, com cambiantes de emoções que me recordam a necessidade de lá regressar. a cor da minha saudade é amarela trigal.
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releia ( I - II - III)

fontes de inspiração

literatura fontenária do mês
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o poeta está sentado à janela.
está um dia fresco de outono. observa o tempo a distender-se sobre os dias.
vê no chão o poder do vento. um remoinho a sorver o tempo que lhe falta. junto do plátano
uma criança sentada na beirada do passeio. tem uns sapatos gastos na biqueira. é assim a infância, pensa
herberto
rompe tantas vezes a memória a trazer de volta a puerícia. relembra o homem que se fechou dentro do casco da experiência.
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ao pé da mesinha de cabeceira um copo com água. uma caixa de comprimidos aberta e ainda alguns espalhados. a dor de cabeça permanente. é assim o dia do
herberto
já não sai de casa só para ver o dia. fica assim a observar o seu poema contínuo. a criar com destreza o encadeamento de palavras que nos dará daqui a uns anos.
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no seu colo está um bloco de notas. um lápis pequeno e roído na ponta, escrevinha a data da morte e a data do sangue. no calendário que se esvai.
herberto, herberto
hélder, hélder
(vai chamando por si uma voz que se desprende das paredes rosadas. aos seus olhos o mundo assume uma energia só possível ao criador)
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é a mulher que lhe serve o chá. sem açúcar que o poeta não pode morrer da diabetes. porque este mundo precisa que alguém finalize o poema. porque se isto que vivemos é um inferno, as facas do que ele escreve cortam o nosso fogo.
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" Vejo o meu pensamento morrendo na escarpa
treva das mulheres.
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E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina,
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra."
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(herberto hélder, a faca não corta o fogo, pp. 20)

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