fontes de inspiração
o porto quando se multiplica em multiplos de mil, as palavras que nunca chegam por se alongarem em demasia. as imagens destituídas de arranjos metafóricos. os olhos desnudados. uma visão renovada e intimista. esta minha descoberta que partilho.
anáfora
Fontes - Uma lisboeta em braga. Qual a tua visão sobre braga?
Ana - Primeiro, era só cinzento e a música melancólica dos sinos. Um primeiro ano de agonia e de espera. A seguir, o lugar estranho do amor. Depois, foi sendo a minha segunda cidade, com os seus defeitos e as suas virtudes, com as pessoas de que já não posso nem quero abdicar e que fazem parte da minha vida, onde me sinto recebida como se estivesse em casa.
Fontes - Quando escreves,é mais inspiração ou transpiração?
Ana - Julgo que só inspiração, embora a inspiração seja das coisas mais trabalhosas que conheço.
Fontes - Como sentes quais os temas importantes para tratar na poesia?
Ana - Os estudos literários tematológicos resumem tudo em amor e morte. Até agora, são essas as minhas obsessões.
Fontes - Quando surgiu a ideia de publicar?
Ana - Numa conversa emocional dentro de um carro estacionado em frente ao mar a beber um pacote de leite com chocolate. Na altura, precisava de uma prova de fogo, de me espalhar na invisibilidade do vento para que alguém que tivesse de me ouvir, me ouvisse. A 'Fábula da Solidão' explica um pouco melhor isto que não estou a conseguir dizer.
Fontes - Qual o caminho que queres percorrer na escrita, ou o legado que queres deixar?
Ana - Não tenho envergadura poética nem intelectual para deixar legados, nem mesmo vontade que isso aconteça no sentido de entrar num cânone, seja ele qual for, mais ou menos conhecido. É até absurdo pensar nesses termos. O meu legado fica só com as pessoas com quem me cruzei afectivamente, saiba eu ou não desse encontro. O sangue que recebi à nascença corre também nas veias dos meus amigos, que é o mais importante para mim. O caminho da escrita é esse trilho de sangue.Quando deixar de unir para passar a desunir, é porque será chegada a hora do silêncio se ocupar de todas as palavras.
Fontes - Qual a importância da crítica para ti?
Ana - Eu gosto de ler um bom ensaio, uma opinião bem formada, uma resenha, o que seja, que me ponha em contacto com outra perspectiva de uma obra que li ou que me forneça pistas que me façam querer ler um livro que, de outra forma, me poderia passar ao lado. A crítica literária, que passa muito por ser um discurso indirecto com o interveniente comum ao do discurso directo - o leitor -, pode ser uma paixão tão forte como a própria criação literária. Esta viveria sem a outra. Mas essa outra não viveria sem a primeira. Só tendo consciência disto é que se pode estabelecer uma relação salutar entre ambas, corajosa, em vida do autor ou da autora, e absolutamente necessária, na morte.
Fontes - Dedica um poema teu aos nossos leitores.
Ana - Dedico o primeiro verso com que abro o primeiro livro - eu conheço a poesia pelo cheiro -, pois espero que todos nós, enquanto humanos, a reconheçamos tanto no mais pequeno como no mais grandioso momento das nossas vidas. Ela está lá, sempre.
Obrigado Ana.
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anortopia
ou um ansiolítico apaziguador
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está bem, façamos de conta…
façamos de conta que o amor não é compromisso. façamos de conta que o amor não é dedicação, esforço e perseverança. façamos de conta que os meandros do amor moderno, catapultado pelo facilitismo, é que estão certos. façamos de conta que a aparente facilidade de escolha e mudança nos torna mais livres. façamos de conta que nos sentimos felizes com esta posição face ao amor. façamos de conta que não há um historial imenso de aventuras contadas e repisadas e que o amor vingou tal como nos querem fazer passar.
façamos de conta que o maio de 68 e o verão quente de 69, evoluíram positivamente e somos filhos da geração livre. façamos de conta que o amor que nos preenche agora é melhor que o anterior, e, que depois de melhorado, porque é mais fácil e rápido, nos preenche de alegria. façamos de conta que não estamos mais depressivos, mais desanimados, vazios. façamos de conta que não andamos à toa a procurar a definição do amor verdadeiro. façamos de conta que não nos suicidamos porque não entendemos o sentido da vida com esse enorme vazio no peito. façamos de conta que estamos perto do sucesso, mesmo que, passo após passo, caminhemos num chão inerte e infértil.
façamos de conta que o romantismo é lamechas. façamos de conta que a verdade, a sinceridade e a fidelidade, o compromisso, a luta por manter intacto o amor, tudo isso é antiquado. façamos de conta que o destino nos vai cair nos braços inadvertidamente enquanto estamos distraídos. façamos de conta que a internet resolverá os nossos problemas relacionais. façamos de conta que não acreditamos no amor verdadeiro e que isso só nos pode trazer problemas e desilusões. façamos de conta que estamos bem assim. façamos de conta que não vemos a toda a toda a hora a tristeza nos rostos de quem não entende o que falta na sua vida. façamos de conta que de noite, ao deitar na almofada, não ouvimos um ensurdecedor eco das nossas frustrações. façamos de conta que quando acordamos não reverbera incessantemente no interior dos ouvidos a decadência das nossas forças.
façamos de conta que não ouvimos os alertas. façamos de conta e deixemo-nos estar sentados depois de ler estas minhas palavras. façamos de conta que eu próprio ao escrever isto não sei o que digo. façamos de conta. uma vida de faz-de-conta. porque, afinal, se tudo isto não passa de uma fraca encenação, então o faz-de-conta é um bom personagem para interpretarmos em palco.
enfim, façamos de conta.
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insprirado num artigo de mário crespo, que podem ler aqui.
considerações metafísicas de um esteta diletante