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fontes de inspiração

as cidades e as terras
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VII

porto
em múltiplos de mil palavras


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o porto quando se multiplica em multiplos de mil, as palavras que nunca chegam por se alongarem em demasia. as imagens destituídas de arranjos metafóricos. os olhos desnudados. uma visão renovada e intimista. esta minha descoberta que partilho.

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as cidades e as terras
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VI

madrid
polaroids monocromáticas
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[ruas]
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nas ruas principais, como é o caso da gran via, pulsa uma corrente viva que não quebra, uma diluída azáfama cosmopolita que nunca se acalma, teimando em altas horas da madrugada em mostrar-nos que as grandes cidades têm uma vida própria. é como se, sem esta gente nas ruas, outra forma de correria endiabrada se apoderaria do seu fluxo sanguíneo. e as luzes da noite, quase sempre aciduladas pelos néons publicitários, são puros delírios visuais, que muito dificilmente se definiriam em palavras.
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[ruelas]
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no interior das artérias - não muito longe das ruas principais - os bairros grafitados, onde as diferenças sociais chocam a paisagem, é mais fácil encontrarmos as histórias rocambolescas e as incríveis maquinações do destino. aqui as minorias estão na sua vida como peixe na água. o chinês nas suas loja de conveniência, labuta numa esquina escura, sempre com um ar desconfiado; o sul-americano (normalmente peruano) transporta um carrinho de mão carregado de cerveja e vinhos, entre o armazém perdido num beco e o restaurante;e o espanhol normalmente antipático, desespera pela hora do fecho para fugir.
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[ruas - 2]
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na rua onde nos instalamos, coabitam os extremos sociais. um restaurante de luxo tem sempre à porta duas ou três prostitutas e um travesti. uma loja de roupa e calçado requintado, fica paredes meias com as casas onde o sexo é cobrado sem impostos.
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[metro]
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estação de metro goya - serigrafias com desenho populares do autor repartem a atenção dos turistas com os relógios em decrescente contagem. parei a apreciar os temas. lutas do povo. retive mais tarde em visita ao museu do prado, a obra inexplicada e tenebrosa da sua fase negra. aqui a arte espanta pela exposição e destaque que tem. e quando entras na carruagem do metro, vendo que quase todas as cabeças pendem sobre os livros, percebemos o porquê.
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[ruas - 3]
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depois vem a noite. atravessamos a correr a praça de espanha. sem motivo, não temos pressa. parámos junto do multibanco, saltando à vista mais um motivo para pintar um retrato desta cidade. lado a lado o símbolo do capitalismo e o da miséria, os dois lados da mesma moeda. indiferentes, dezenas de pessoas levantam as notas de 500 euros, mesmo junto a dois mendigos que dormem protegidos do frio por jornais e um saco-cama. é um casal - que igualmente indiferente - descansa de mão dada.
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[metro - 2]
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acendem-se os cigarros e os vendedores ambulantes estacionam nas saídas do metro. por ali toda a gente se encontra para um botellón. corremos o risco de nos perdermos de amores por uma vida assim. quem passou pela universidade sabe. e no mínimo recorta do peito uma ou outra lembrança saudosa. não que me impressione ou me lamurie com o bom passado. nem me impressionam estas acrobacias sociais. a vida desta forma sente-se a dobrar e parece que te imortalizas nos flashes do convívio inter-cultural. não há contudo espaço para pintar todo o quadro monocromático da noite.
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releia ( I - II - III- IV - V - VI)
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V

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o parque urbano, o violino e o caneiro
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[escrevo-vos a partir da cidade onde deveria estar. não estou fisicamente, bem entendido. estou lá com toda a minha omnipresença. demasiado longe destas teclas. não me interpretem mal. é de lá que quero escrever porque assim o poder da imagem virtual assume proporções mais consentâneas com a beleza da cidade]
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não estou lá. por isso abri um livro esta noite [*], disposto a ler de uma ponta a outra e a procurar nele a solução para este problema. escrevinho apontamentos como se fosse possível enganar as esquinas daquelas ruas estreitas. como se a chuva fosse parar a qualquer momento e ao dissipar-se a névoa baixa e rasante, me aperceba que estive lá verdadeiramente o tempo todo.
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[visitar com vontade uma cidade é quebrar a regra básica dos dias, amarrar as sensações que se anunciam na arquitectura, esquecendo o relógio, esquecendo o dia, arqueando as sobrancelhas perante as novidades. não é que seja nova esta cidade para mim, mas há muito que a não via deste anfiteatro. está mais verde a água do lago, e o espelho dilacera a sombra com as ondulações com que o sol vai preenchendo o fim de tarde]
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o romance é fabuloso, de ritmo célere, convidativo, alucinado - não tanto ao jeito de borges como esta crónica começa a parecer -, mas vai colmatando o facto de eu estar aqui, longe da cidade onde deveria estar. arrisca um caminho tortuoso, onde se confunde o real e fantasioso, onde narrador e personagens são teleportados de diferentes países ao ritmo necessário da narrativa. quero crer que não me está a afectar os sentidos, e que não escreverei aqui nada que me faça duvidar da minha lucidez.
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[recordo porventura melhor o rio ave. hoje está mais limpo, um tanto ou quanto por minha culpa também, pois me empenho todos os dias para isso. há pescadores perto do caneiro (é um açude ali perto) e isso é a prova de que há vida de novo no rio. chego a invejar esta capacidade da natureza se regenerar tão rapidamente, tal é a minha vontade de arrancar tudo o que sinto e sei, tudo do que quero esquecer como certeza inabalável. estou de novo lá com toda a minha força imagética. que pena que cada um não possa estar onde quer realmente estar]
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o livro caminhou para o fim naturalmente. é fácil quando nos prendemos a ele, esperando castigar o corpo com horas a fio ligado a duras metáforas ou realidades complexas. os olhos a pesarem e eu a expurgar os meus males naqueles desenhos de uma áfrica inventada. estava convencido de que no fim estaria pago o meu pecado, o de não estar naquela cidade.
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[vou terminar a minha crónica na cidade onde deveria ter estado. prefiro terminar com o sol abrasador de junho, vestido a rigor para aquele dia. entrar de novo na igreja fria. respirar fundo a decrepitude das talhas douradas, a mistura entre incenso e cera derretida. é aí que os violinos estarão a soprar aos meus ouvidos o encanto cénico de uma cidade que não se pode sentir pela arte de rua, mas posso guardar no recanto fraco do meu coração.]
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(livro do mês de fevereiro deste estimado blog - leiam amigos, leiam que é uma pérola)
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releia ( I - II - III- IV - V)

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IV

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a cidade dos sonhos
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hoje vou escrever sobre uma terra que não conheço. nunca lá estive mas imaginei um dia ser diferente de todas.
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não estou a enganar ninguém, ela está no mapa, a uma distância razoável de braga, mas como nunca lá estive apenas posso confiar no meu convicto sexto sentido. julgo poder um dia vir a ser a melhor cidade do mundo.
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esta cidade é enorme em territórito, mas lá vive com pouca gente. vivem todos de bem com a vida. não falta nada a ninguém e o sistema é tão perfeito que não tem presidente de câmara ou junta. o padre faz corpo presente porque ninguém tem pecados, e mais parece o caseiro da igreja. nas ruas o trânsito é calmo, sereno, e mesmo assim ninguém se atrasa. o melhor mesmo é que ninguém morre nesta terra abençoada por um deus perfeito. nada vive sem a beleza da perfeição da sua obra.
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o único cemitério que existe é no alto da colina, onde passa um riacho. as pessoas que aqui vivem, deixaram de acreditar em sonhos. assim, de cada vez que se vê alguém subir pelo caminho que vai desembocar na ponte sobre o ribeiro, sabe-se que será mais um sonho a ser sepultado.
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o dia em que imaginei esta terra, sentei-me a pensar que seria a terra perfeita, e que onde não havia posto da gnr (sim, porque onde não há crime, não se necessita de agente da ordem), pensei que poderia viver em paz, sem o medo da morte. o preço é enterrar os sonhos. bem fundo.
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segundo se consta muita gente abandonou a terra porque a alegria do risco, da aventura e das saudades do tempo em que o onírico fazia parte da vida deles, os levou a uma loucura saudável. por momentos acreditei ter encontrado a terra de deus, a terra dos sonhos.
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esta manhã, depois de desfazer a barba, lembrei-me de voltar a procurar a terra no mapa. e lá continua. decido deixá-la descrita para que um dia saiba que desisti dela. para que não me chamem louco porque ela existe. e para o caso de haver alguém que queira vender os seus sonhos. eu já não a quero conhecer.
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é que há sonhos que não merecem ser desenterrados.
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releia ( I - II - III- IV)

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III

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évora - no olimpo dos deuses

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subimos pela manhã ao único monte que existe em todas as redondezas. o alentejo assim vestido de uma intensa vida modorrenta, modera os excessos de calor, afunila o horizonte que se vai perdendo de vista e retrata a vida dos sobreviventes da estiva. subimos ao único monte pela única estrada que lá subia. muito devagar como manda a boa educação dos forasteiros.
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há uma professora catedrática que vai explicando os pormenores técnicos e cientifícos desta visita. ao que parece é um dos primeiros projectos de siza vieira, um bairro habitacional construído no início dos anos 80. está degradado como tudo o que vai avançando na idade. e cheio de erros de concepção, nada como perceber que a genialidade exige trabalho e dedicação.
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não me preocupam os erros das pessoas. mesmo que não seja digno do nome siza vieira, a obra está ali, e ali vivem dezenas de pessoas que disfrutam duma paisagem irrepetível. procuro desviar-me um pouco dali e deparo-me com um cenário maravilhoso. do alto deste monte vemos toda a cidade de évora, toda a muralha circundante, a cidade intra-muros e ainda as novas urbanizações (não muitas que o partido comunista não deixa que os exploradores do mercado liberal se apoderem desta beleza).
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a muralha define os limites, o cerco onde viviam muitas vezes estas pessoas. foi ali que se aplacou a investida do rei português pela conquista do reino. d. sancho I invadiu as sombras da cidade expulsando os árabes que nos deixaram esta excelente arquitectura. a muralha continua intacta em quase toda a sua extensão. depois circula pela cidade um engenho que abastecia água a toda a população, o aqueduto.
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o sol abata-se sobre os pilares resistentes do templo. poucos turistas ocupam as perspectivas sobre o monumento. vão repetindo os cliques procurando recalcar a memória futura. os clichés nunca se cansam de repisar o rolo (sim naqueles anos só existiam máquinas de rolo).
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sei que permaneço inerte enquanto vibram em mim arrepios perante os cenários mais estranhos. uma capela repleta de ossos parece-me macabro. desenterrar as almas de deus - ou o que resta delas - e ornamentar uma capela pelo simples sonho de um frei não me parece que fosse bem recebido pela inquisição (vale ao frei que a evolução do pensamento fez esquecer o rigor da obediciência católica)
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estou cansado (não de escrever esta crónica) estou estafado deste passeio e é a minha hora de descansar na praça do giraldo. nestas esplanadas escrevinho coisas que acabarei por perder com o tempo. os cadernos das viagens são sempre fieis depositários da realidade vivida, mas não do que existe. de cada vez que lá voltei vi uma cidade diferente, ou eu é que voltei marcado, com cambiantes de emoções que me recordam a necessidade de lá regressar. a cor da minha saudade é amarela trigal.
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releia ( I - II - III)

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I I
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lisboa - menina e cachopa
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dou por mim sem saber falar de lisboa. como se fosse uma mulher por quem me apaixonei há muito, em rasgo de coração à primeira vista. e assim se tornou um amor clandestino, pelo menos a julgar pela música que vai tocando nos meus ouvidos.
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a primeira vez que entrei na cidade, há uns 13 anos atrás se não me atraiçoa a memória, senti que entrava num espaço construído nos sonhos, por entre as noites de espera pelo passeio. correr em direcção à capital, não saber o que contar, não dormir uma noite, rir todo o caminho pesando-me a excitação pela novidade e não corar de vergonha nos primeiros toques ao seu rosto.
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lisboa é sem dúvida uma mulher lindíssima. talvez com os seus trinta e não muitos mais anos de vida. lisboa encanta pela sobriedade e naturalidade de movimentos, certa de que a olham com desejo de possuir o que parece difícil de alcançar. da sua roupa ainda hoje me recordo de belém e dos pastéis, da ponte sobre o tejo, do castelo de s. jorge, da rua augusta, do elevador da glória, do chiado, de fernando pessoa na esplanada, das docas, do bairro alto, da praça do comércio e dos cacilheiros. e como se acumula a minha dívida a esses sentimentais colossos, esses circulares vaivéns planadores do rio, unindo as margens cegando-nos com a visão do cristo rei.
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tenho saudades da baixa. de estar sem pressa numa lisboa para mim regrada e imponente. de andar sem mapa e sem destino, porque ali tudo nos encaminha aos recantos brilhantes de uma história refeita todos os anos. a cada ano que passa sem lá voltar, acumula-se-me no coração um filme a preto e branco que vou construindo mentalmente, para me aquecer o esquecimento e o desmembrar das imagens que guardo com afecto.
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não é por isto que trocava a minha cidade.
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viver em lisboa seria para mim matar um amor. algo que de tão platónico e incandescente vive da distância. e se falasse de uma mulher seria isto que eu diria a quem um dia me apanhou nas teias da suas calçadas acetinadas. lisboa menina e mulher, num caminho que farei todas as vezes como se regressasse ao útero da cidade primórdio, um ulisses enfeitiçado, clamando por um amor clandestino nas margens do tejo.
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releia (I)

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I
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braga - no silêncio do coração alheio
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cinco
paremos por cinco minutos. não para ler esta crónica, propriamente. paremos para respirar fundo e meditar sobre o que nos rodeia. sobre a cidade que se nos entorna olhos dentro, que nunca pára, que circula nos carros, nos transportes públicos, nas bicicletas ou a pé. essa cidade que não é mais que a soma da nossa gente.
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quatro
paremos uma vez na semana para pensar. e, porque não, pararmos numa esplanada e observar quem passa, quem por momentos cruza o nosso espaço, e atentemos nas expressões que tantas vezes carregadas, são também reflexo das nossas, noutras horas, noutras ruas.
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três
bastam três minutos de olhos fechados para sabermos o que nos escapa a toda a hora. nesse tempo, tão pouco linear, que se dissolve na nossa abstracção de sentidos visuais, conseguimos ouvir e cheirar a força do granito da nossa cidade, e os passos acelerados que nele se arrastam.
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dois
pode ser que por um momento seja mais fácil entender que nos deixamos perder no stress, e que não há outro caminho de regresso que não o silêncio. e não vos peço que as manifestações de pesar pela vida que se desperdiça, surjam de imediato, mas apenas que dêem lugar a uma auto-estima renovada na vontade de mudar.
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um
e apenas um momento. uma pausa por semana bastaria para nos reconhecermos. para voltarmos a perceber que somos uns bracarenses amorfos pela indiferença ou pela dureza do dia-a-dia, mas que não nos podem cercear a força de querer viver melhor. e só em cada um de nós surgirá a parte que mudará o todo.
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para que nunca sejamos
zero.
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(agradeço o agradável convite que me endereçaram deste blogue. farei os possíveis por corresponder às expectativas de quem lê estas novas crónicas que hoje se iniciam. todos os sábados, às 14:14)

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