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fontes de inspiração

poesia - um canto do fontanário
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VI
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memória de aroma
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ontem como hoje é evidente
que me esqueço das palavras certas,
as que te diria sério ou a rir
e as que te dirá o tempo com mais certeza.
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ontem como hoje iludo o tempo tenaz
o que me agarra com cordas quando não estás
nem me solta tão pouco quando me assombra
a ideia da tua ausência.
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ontem como hoje é evidente
que me enternece a memória do aroma
da tempestade revoltada que se esmorece
na tua pele e no teu sorriso-núvem.
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ontem como hoje engano o espaço intermédio
o dia lenga-lenga (esqueço-me) e a noite,
sou destro no passo apressado para a sombra
e encosto-me na imagem de um espelho da rua.
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ontem como hoje é evidente
que a paixão se tornou um corte que teima
em cicatrizar atolado de medo-fantasma,
ou numa toalha que se entende na mesa vazia.
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ontem como hoje atalho por entre ruelas
(nunca a correr porque me atrapalha a calçada)
a procurar uma morada de silêncio
onde as palvras susurradas serão silvos certeiros.
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ontem como hoje é evidente
que não sei tirar da poesia o brilho
nem pintar a minha fraqueza, tu.
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releia ( I - II - III - IV - V - VI)

fontes de inspiração

poesia - um canto do fontanário
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V
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o teu corpo-pátria
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para a daniela
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estranho ver-te entregar-me o
teu espelho, invertendo-me o real.
a tua guerra termina na hora em
que destróis esse muro agreste,
chorando uma morte que finalmente
se enterra em ti.
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queria partir hoje em busca desse
teu corpo-pátria, inventar
uma bandeira e um hino, cantar
democracia plena e restaurar
a liberdade na tua pele.
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estranho ver-te entregar-me as
fronteiras da tua carne arriscando
a minha invasão.
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(eu sei que nesse país não
há lugar para lamúrias)
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releia ( I - II - III - IV - V)

fontes de inspiração

poesia - um canto do fontanário
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xica
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a tua gata tem dois corações,
vê-se pelo olhos a transbordar de
arrastados miaus, sedentos de
mão no pelo.
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a menina da gata tem dois corações,
vê-se pelo olhar a tranbordar de
arrastados desditos, sedentos de
mão na pele.
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tanto coração junto estorva-me a lucidez
e acaba por derreter a pedra de que me
visto.
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já eu, tenho três corações, e cada um deles
bate devagar sedento de uma mão que os agarre, e
não os sentia bater desde o desembarque do
infinito nestas margens que agora se diluem de novo.
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releia ( I - II - III - IV)

fontes de inspiração

poesia - um canto do fontanário
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se deus contasse
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como se de uma loja maçónica se tratasse
os escudeiros de deus sentaram-se numa mesa
redonda, longa, estreita, pesada. forte . dura .
sem papéis na mesa discorre-se sobre assuntos
penosos, idosos, rudes, redondos. esquecidos.
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como se a negociação fosse penosa, deus, a um
canto, não fala. em verdade a espaços tosse, e
as armas com que deus luta na terra,
(os condestáveis)
suspendem-se temerosos do veredicto.
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não sei que dia sugerimos ao inferno para descer,
se na manhã serena, se na noite robusta,
que venha com data marcada e nós o receberemos,
num confronto letal, directo, obscuro. mortal .
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tudo por esta luta.
se deus soubesse fazer contas já nos teria somado
desde a criação da beleza, o dia em que a minha voz
tocou os olhos serenos da tua imaculada beleza.
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já não sei se vale uma luta assim, tirania
com que me rasgo, estropio, dilacero. destruo .
nem sei se deus contará com a divisão que fiz
dos meus medos, que espalhados na mesa não sabes
subtrair.
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uma mesa oval para dois, um amor redondo afinal.
sem negociação adiantada. e o inferno com dia marcado.
se ao menos deus soubesse multiplicar o desejo.
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releia ( I - II - III)

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poesia - um canto do fontanário
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just a glance, nothing more
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prefiro o português.
dito ou escrito
escorreito, de preferência em palavras certeiras. não
vejo nunca o potencial dos estrangerismos.
prefiro a paixão que se ilumina num olhar, uma
deixa pretenciosa a pairar entre dois estranhos que não
vão distinguir a destruição do gesto pendente naquela espera.

prefiro o português.
mesmo que perdido
nos desenlaces inesperados de uma noite em que os corpos
se perdem inocentes nos desvios e soslaios da visão,
que mal se detêm na beirada da porta quando se precisam anunciar.
aumentam o ritmo dos passos, acelerando a batida do som já alto
numa noite despida pelo incerto desfecho da química astral.

prefiro a noite.
prefiro o olhar do desnorte. o escuro salto num sorriso.
o mundo todo num momento. ou dois mundos em tensão latente.
em bom português.

fontes de inspiração

poesia - um canto do fontanário
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manifesto anti-poetas
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nunca gostei de poesia, nem da boa nem da má,
aliás seria para mim difícil descrever a boa porque não
conheço poeta que seja honesto. vivem das metáforas
que penduram nas palavras tentando aligeirar um caminho
que se deve fazer de trabalho árduo, e não de maquinações
ou construções hierárquicas, cheirando muitas delas a bafio.
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nunca gostei da poesia porque não gosto de poetas. não
é das suas palavras que eu fujo, mas das mentiras que eles
empregam nos seus discursos de realidade invertida. não gosto
porque não gosto, da cara dos poetas, porque nos enganam. sim.
porque nos enganam com magias negras duma força oculta
que nos vendem alimentadas de sonhos.
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nunca acreditem em poetas, sejam eles pedintes ou pobres
desgraçados ou miseráveis, sempre se queixam com tudo o que
têm nas mãos e não mostram. são velhos que nos podem encarcerar
nos corredores de uma entreaberta biblioteca de palavras difusas,
são algozes que nos podem decepar a lucidez que nos ensina a realidade.
são maviosos cantos de intrujão.
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e se é em verso livre que vos escrevo
não se deixem enganar com o manifesto
porque sem uma alma de poeta ancião,
nunca estas palavras sairiam da minha mão.

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