Mostrar mensagens com a etiqueta literatura do mês. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta literatura do mês. Mostrar todas as mensagens

fontes de inspiração

literatura fontenária do mês
VII (1ª parte)

anáfora

ana salomé


"todos somos os livros que alguém
deixou por abrir." (pp.21)
1 O TEMPO DOS POETAS

Solitariamente, todos os poetas têm de fazer destes dias o tempo da poesia. Não esquecer os traços azuis que o mundo ainda lhes oferece e que eles devem mostrar a todos sem indecisão. Lavar as mãos com as águas frias das palavras e encostarem-se ao peito uns dos outros è procura dos seus corações. Mesmo que os prédios cresçam como as flores que nos restam. Mesmo que os discursos amachuquem os mais sensíveis. Solitariamente, os poetas não podem esquecer quem são.

anáfora (pp. 35)


digamos que prefiro escrever as crónicas ao sol. na esplanada. corro o risco de um dia me faltar a inspiração e não ter matéria para publicar (nem tempo para resolver esse imbróglio). felizmente o mundo dispõe de milhares de imagens e vozes ocultas que nos anunciam palavra e poesia, basta que as saibamos ouvir.
hoje ensaio o que passei horas a pensar, falar sobre a "anáfora" da ana salomé. esta primeira parte da análise (a segunda fica para a próxima semana com a obra "odes") apresenta-nos uma série de textos que resultam de uma visão peculiar da autora. aos seus olhos o mundo é descrito em camadas atmosféricas, como se pudéssemos viver realidades diferentes, sobrepostas, como se os corpos pudessem tocar a metafísica, como se os corpos fossem por vezes imateriais, infantis, puros, esventrados de maldade. mas para falar da sua escrita eu sinto-me inibido, é que " A vida torna-se-me imprecisa como quando a língua entaramelada na boca quer falar, só não sabe que palavras." (pp.31)
Parece-me haver uma diferença marcante na poesia e nas palavras dos escritores. pelo menos uma fenda identificável, uma clivagem marcante. julgo que há um antes e um depois da crença. no caso da ana salomé, esta obra é toda vertida de sentido positivista (não que a segunda apresente a diferença referida, mas há mais linhas apontadas à descrença). a silhueta da obra é carregada de princípios activos capazes de serem uma panaceia, principalmente para os delatores da paixão, "Amar-te é amanhecer-me da cintura para cima." (pp.24) Neste sentido só há um afloramento nubloso de que discordo (então menina, isto diz-se?) "Há ainda quem não saiba que não há nada em que acreditar." (pp.24)
digamos que gosto de escrever as crónicas ao sol. as palavras ficam mais limpas. as ideias enxaguam-se num processo de lavagem calmo e pacífico. posso até ver mais claramente laivos desta pacífica transposição das letras para o papel nas palavras da ana, "Abri a boca e saiu de lá um poema. Um poema teu que foi um beijo na testa." (pp. 15) quando a ana me ofereceu as suas duas obras, disse-me, na nossa conversa sobre a poesia, que a escrita dela não seria bem o meu género. Gosto da humildade, mas a modéstia veste-lhe mal neste caso. a minha poesia de eleição é a que diz coisas destas,
"Num desses dias fizemos amor - duas crianças com corpo de sol envoltas no escuro -, e dormimos abraçados como se fossemos o boneco um do outro." (pp.14)
acredito numa forma de vida que pouca gente advoga para si. e ao ler estas palavras sou tentado a adiar a falência desse sentido, sou obrigado a aceitar prolongar a minha luta, evitando a minha própria descrença no mundo. há lições neste pequeno-grande livro. e há frases que não se podem esquecer, "o amor é inventarmo-nos todos os dias." (pp.42)
digamos que gosto de escrever as crónicas ao sol. na esplanada. nestes sábados luminosos as palavras ficam mais limpas, como as da ana, " E depois disto tudo não sei se hei-de ficar triste ou não aos domingos." (pp.32)

2 SUSTO DE GIRASSOL

Preciso de ti para um poema
Vasco Gato

Era assim que no meio de uma página em branco eles se encontravam e faziam os primeiros pedidos da manhã. Ele, trazia-lhe as mãos abertas e um coração-de-escrever. Ela, um susto susto de girassol ao peito. Ambos se admiravam num quase quase confronto de nuvens. As dele e as dela. Ela trazia todos os dias um diferente vestido de nuvens, azul, da cor verdadeira que ele tanto lhe queria ter. A tua cor, o azul do teu rosto quando anoiteces. Pedia-lhe. E chamava-lhe amor como quem atira palavras aos pássaros. E ele dava-lhe os pássaros e também o mundo. Inteiro, pedia-lhe. Preciso de ti com estas mãos com que o vento desfolha cabelos. Os teus. E foi então que ela entrou no poema, com a mansidão de um gato.

anáfora (pp. 23)

fontes de inspiração

literatura fontenária do mês
.

VI

.
este livro parece-me ter duas questões de fundo mais vincadas na narrativa, a dificuldade de escrever a originalidade com criatividade cativadora, e o amor. parte de uma história de amor meio perdida entre a realidade e a ficção, e segue o caminho de um escritor que busca a história perfeita para o romance perfeito, sendo certo que para mim toda a energia está nessa história de amor. o autor é averso a finais felizes, sente-se permanentemente a luta por mostrar a lógica linear da vida real, em contraposição aos devaneios relapsos do personagem principal no que toca a discursos idílicos.
.
tive alguma dificuldade em seleccionar algumas passagens deste livro, tamanha foi a voragem com que sublinhei frases e parágrafos. já tinha referido que o li de uma assentada numa noite daquelas em que me pareceu importante ler sem parar. em boa hora o escolhi da prateleira-lista-de-espera, pois rapidamente me apercebi de que seria fácil terminar a leitura. passei de novo os olhos pelas citações e tive a sensação de que o próprio autor teve o cuidado de fazer deste livro uma enciclopédia de boas escolhas para leitura. ao longo da narrativa, que o autor refere ter sido construída sobre textos esparsos - resultando depois neste arrumadinho romance -, podemos perceber que ler é um instrumento mais importante que escrever. em todo um livro que demorará muito tempo a ser construído, pode surgir uma frase que mudará muito do que pensamos. honra seja feita a quem escreve, publica e não se sente justamente compensado, porque "[...] a necessidade de escrever é, porém, mais imperativa; o desconforto da chuva é mais forte do que o apelo do vento. Talvez uma frase de kafka o explique: "um escritor que não escreve é um monstro que convida à loucura.[...]" (pp. 24)
.
não percebemos bem o que pode ser auto-biográfico (e isto é de uma crueldade atroz com o autor - quem escreve sobre livros não deveria nunca misturar estas duas vivências distintas). a invenção do personagem que vai em viagem para áfrica, como se longe de tudo pudéssemos encontrar as histórias num continente que se percebe ser inebriante e ensandecedor a quem o visita, parece ser um íntimo desejo do autor. a fuga ao dia-a-dia acabrunhante para almejar encontrar inspiração para escrever uma vida real mais límpida, mesmo que se perceba na sua visão um realismo clarificador do curso da vida, parece ser um desejo de mimetizar os sentimentos com os lugares.
.
.
depois de ter tomado conhecimento da insolvência da editora de manuel jorge marmelo, fico ainda mais convencido de que o autor tem razão quando diz neste livro, "[...] tal como o personagem principal no seu passeio dominical, talvez acrescentasse que sentir-me um ser humano e dar passeios me parece tão bonito como estar sentado à secretária e ter sucesso a vender livros. [...] " (pp. 85)
.
para florear um pouco, acrescentaria que existe um ou outro pormenor de refinado humor nos seus textos, e ainda umas corrosivas opiniões sobre as mulheres "[...] Em todo o caso as mulheres são o que são: aparecem, insinuam-se, metem-se no coração e, em pouco tempo, tomam conta das nossas vidas. Colonizam-nos. Subvertem a nossa natureza e moldam-na de acordo com os seus caprichos. Se somos inocentes e fracos, podem transformar-nos em monstros sem coração. Se somos duros e cruéis, são capazes de domesticar-nos, reduzem-nos a quase nada. Tenho visto vários casos semelhante e foi isto que me tornou desconfiado [...] " (pp. 48). e depois há esse amor nas palavras muito próprias do autor, carregadas por vezes de pouca crença, "[...] Estou hoje convencido de que é impossível ser feliz, mesmo quando se ama muito e se é amado pela mais bela das mulheres [...]" (pp.82)
.
contactei o autor, e com muita simpatia me respondeu a 3 questões, sendo que esta obra começou com um blog (cujo personagem principal passou a ser o do livro), e que os textos avulsos ganharam consistência, vindo a tornar-se neste romance. deixo o meu agradecimento publico pela simpatia do autor.
.
gostaria que as minhas palavras fossem um veículo importante na divulgação das obras portuguesas, da literatura pouco reconhecida, e por isso espero que o meu contributo possa ser frutífero nessa medida. termino com uma passagem que marca um pouco esta obra, a dificuldade da definição da realidade e da ficção, onde nos meandros das palavras se confundem os misteriosos mecanismos da escrita, "[...] apesar de tudo, eu sei que M. se tem em melhor conta do que aquilo que aparenta; que tem algumas pretensões relativamente aos livros que escreveu e que gostaria de vê-los devidamente valorizados; que se lhes reconhecesse, ao menos honestidade intelectual, empenho e vontade de fazer melhor. [...]" (pp. 77) não terá este meu texto o único objectivo de reconhecer tudo isto?

.
.
releia ( I - II - III - IV - V - VI)

fontes de inspiração

literatura fontenária do mês
.
V
.
falar sobre uma obra de poesia completa ou quase completa, parece à partida difícil, mas não é. não é porque não sou perito na matéria, não é difícil porque não faço análises eruditas, não é tarefa árdua porque isto não é uma crítica literária, no fundo, e em suma, resume-se a uma definição básica, ou se gosta ou não se gosta (o que, já de si parecendo simples, não o é).
.
estamos na presença de uma obra cuja edição da cosmorama abrilhanta pelo cuidado estético com que é apresentada (aliás é política da editora esse trabalho meticuloso). estão coligidos aqui nove livros (incluindo a obra "bruno" editado em espanha numa edição bilingue, e algo difícil de encontrar por cá). depois acresce outro aspecto que dá maior importância a esta edição, o facto evidente de que a maioria dos títulos do autor publicados na quasi edições estarem esgotados. (desconheço se por quezílias públicas, se por outro motivo alheio à minha compreensão). refira-se também que faltam nesta antologia pelo menos dois livros publicados pelo autor. "estou escondido na cor amarga do fim da tarde" (campo das letras) - obra esta que tenho e li; e ainda a mais antiga de todas cujo título e editora me escapam por completo. são renegadas pelo autor por terem sido escritas numa fase muito prematura da sua evolução como poeta, denotando-se à distância uma diferença qualitativa em relação ao que foi editado posteriormente. compreende-se. até pelas palavras que se encontram na nota do autor neste livro, " [...] porque não conservo senão uma vontade de futuro, uma necessidade de continuar fazendo, mais do que me deixar fascinar ou sequer convencer pelo que já fiz. [...]". há sempre omnipresente esse trabalho se sapa em todos os poetas, a necessidade da procura da perfeição e decepação das palavras e versos a mais, " [...] e, se pudesse, haveria de os reescrever e redizer um a um, verso a verso, até à náusea, para os aproximar sempre daquilo que sou hoje e daquilo que quero hoje. [...]".
.

.

estou convencido de que é possível ler quase tudo o que se faz na poesia, e só então nos decidirmos pelo nosso gosto e estilo. esta obra mostra que pode haver correntes e caminhos completamente diferentes dentro de cada autor. parece-me ser uma obra obrigatória para os amantes da literatura e da poesia em particular, onde se podem apreciar algumas surpresas agradáveis, ao mesmo que tempo que se pode ir bebendo estas palavras no ritmo e tempo que acharmos mais conveniente.
.
é esse o segredo para apreciar a poesia, ler como um processo de comunicação externa em que o autor, leitor e texto se confundem, e mesmo sendo entidades independentes, essa mescla em que se tornam mostra a absoluta indefinibilidade dos limites de cada um.
.
deixo-vos um trecho do poema "uma língua para a solidão e para a perplexidade" da obra "pornografia erudita", uma citação que é a prova de que o romantismo é possível (o eterno melómano da sonoridade poética), mesmo que só em palavras,
.
" [...] vou amar-te eternamente
se a perplexidade puder ser uma forma de amor. procura
em mim uma possibilidade de comunicação. procura-me.
se não te ouvir toca-me, tu tão bela, e espera quanto
for preciso. hei-de manifestar-me, mesmo que apenas
para lembrar que o teu amor é também a minha
mais certeira morte e o caminho para lá chegar
seja a invenção de algo tão preciso como uma
palavra nunca proferida." (pp. 68)
.
.
.
post scriptum, não podia deixar de dizer que foi com um enorme prazer que ontem conheci pessoalmente os ilustres companheiros deste blog.
.
.
releia ( I - II - III - IV - V)

fontes de inspiração

literatura fontenária do mês


" [...] o que faz a grandeza deste livro singular
é a sua aparente renúncia a querer ensinar ao
mundo aquilo que o mundo só pode aprender
por si próprio. [...]"
antónio mega ferreira (in n.s. nº 149 - pp.57)
.
prometi que iria cumprir uma tarefa. no dia em que saramago morrer vou recomeçar a ler a sua obra e analisar livro a livro, as passagens mais marcantes, retirar as melhores citações, as melhores reflexões, tudo o que for de interesse público, e irei divulgar os seus textos. porque se tornou uma paixão literária muito forte. e eu sou obstinado.
o paquiderme oferecido pelo rei de portugal (d. joão III) ao seu homólogo da áustria (maximiliano) , ilustre terra que saramago faz questão de castigar em algumas partes (e que eu corroboro, apesar de só conhecer a capital), sendo que os seus habitantes têm tanto de cultos como de antipáticos, vai fazer a viagem para ser entregue ao seu novo dono. esforço-me pois por deixar o livro de saramago falar, porque é triste perceber que o escritor português, tão maltratado em tempos (relembro a fase do lançamento da obra o evangelho jesus segundo jesus cristo; obra aliás que todos deveriam ler para perceber a grandeza da imaginação humana) dizia então, que é triste perceber que ele terá pouco mais a dar aos seus seguidores (eu e mais uns poucos, não sei bem quantos, mas nunca conheci ninguém que tenha lido uma das suas obras).
considero estar de tal forma bem escrito, que mais poderemos dizer que é um exercício de ensaio sem necessidade de correcção, escreve com a leveza com que a ideia desliza para o papel, porque se apoderou dele aquilo que eu procuro na minha escrita (para além de expurgar as tentações auto-biográficas) que são as certezas aliadas à ficção. os valores permanentes. virão umas vozes críticas que eu terei muito gosto em retorquir antes delas se fazerem ouvir. diz o miguel esteves cardoso, na mais que propalada e referenciada excelente entrevista à revista ler,
" Sobre toda a gente que morava numa ditadura vão arranjar histórias. [...] Mas isso pelo amor de Deus, não tem nada a ver com a obra." (vão lá ver se quiserem e leiam o resto, pp. 34)
é uma tendência natural que temos de denegrir o que é português e bom. não percebo. ultimamente só tenho lido boa prosa e poesia em português. a viagem do elefante é também um conto que esplana o que de melhor pode haver nos homens. e o pior em contraponto, "Somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades." (pp. 147). talvez por isso sejamos uma espécie de " [...] frustrados como aquele espectador que seguia uma companhia de circo para onde quer que ela fosse só para estar presente no dia em que o acrobata caísse fora de rede. [...] " (pp. 169)
.

esta viagem é uma desculpa para criticar a estrutura da sociedade, como as pessoas se envolvem, como as aparências podem cingir as liberdades. ao ler percebemos que saramago sublinha a incongruência desses lapsos ancestrais. a estupidez humana que diminui um simples soldado, ou agricultor pela falta de escolaridade (não de educação), quando podem ser poços de sabedoria e ensinamento, é algo que só tarde ou nunca aprendemos. a humildade de reconhecer a necessidade de tratamento de igualdade, os valores de partilha, sentimentos nobres de entre-ajuda, no fundo o que todos sabemos ser necessário, mas insistimos em esquecer.
não sei se não devemos mesmo sublevarmo-nos perante o que se considera inevitável, "não discutas com quem manda, subhro *, aprende a viver." (pp. 52) e não vejo aqui nada que possa ser defendido como sendo de costela esquerdista, quem me conhece sabe que as minhas opiniões são pouco enquadráveis, e eu defendo o que penso. ler é para mim um exercício de libertação ou de experimentação da liberdade. e aconselho por isso mesmo. sem tabus nem ideias coarctantes.
por isso, escreve mais saramago. escreve para os ímpios que amanhã, depois da tua morte, te elevarão a um patamar que em vida nunca o farão. nós esperamos por mais, porque "o porvir, como os antigos diziam, e acreditavam, só a deus pertence, vivamos nós o dia de hoje, que o de amanhã nunca se sabe." (pp.246) esperando que nos deixes esse legado.

.

* subhro (tratador do elefante)

releia ( I - II - III - IV)

fontes de inspiração

literatura fontenária do mês
.
o poeta está sentado à janela.
está um dia fresco de outono. observa o tempo a distender-se sobre os dias.
vê no chão o poder do vento. um remoinho a sorver o tempo que lhe falta. junto do plátano
uma criança sentada na beirada do passeio. tem uns sapatos gastos na biqueira. é assim a infância, pensa
herberto
rompe tantas vezes a memória a trazer de volta a puerícia. relembra o homem que se fechou dentro do casco da experiência.
.
ao pé da mesinha de cabeceira um copo com água. uma caixa de comprimidos aberta e ainda alguns espalhados. a dor de cabeça permanente. é assim o dia do
herberto
já não sai de casa só para ver o dia. fica assim a observar o seu poema contínuo. a criar com destreza o encadeamento de palavras que nos dará daqui a uns anos.
.
no seu colo está um bloco de notas. um lápis pequeno e roído na ponta, escrevinha a data da morte e a data do sangue. no calendário que se esvai.
herberto, herberto
hélder, hélder
(vai chamando por si uma voz que se desprende das paredes rosadas. aos seus olhos o mundo assume uma energia só possível ao criador)
.
é a mulher que lhe serve o chá. sem açúcar que o poeta não pode morrer da diabetes. porque este mundo precisa que alguém finalize o poema. porque se isto que vivemos é um inferno, as facas do que ele escreve cortam o nosso fogo.
.
" Vejo o meu pensamento morrendo na escarpa
treva das mulheres.
.
E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina,
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra."
.
(herberto hélder, a faca não corta o fogo, pp. 20)

fontes de inspiração

literatura fontenária do mês


venenos de deus remédios do diabo
mia couto, caminho – 2008

[7,5/10]


entre áfrica e portugal continuará a existir uma relação umbilical. a prosa romanceada não poderá fugir a essa genética centenária que nos corre nos dedos quando escrevemos sobre as relações dos povos. o moçambicano mia couto volta a esse tema no seu último romance. venenos de deus, remédios do diabo, é um romance que nasce da partida de um médico português na procura de uma mulher que conheceu em lisboa. vai vivendo naquela terra (vila cacimba) perdida no continente africano, servindo a povoação local e um casal (dona munda e bartolomeu sozinho), casal este progenitor da bela deolinda, razão pela qual o médico viajou para esta terra.
.
a história é um desfilar dos temas recorrentes. bartolomeu sozinho serviu em tempos um barco português como mecânico, conheceu portugal e uma parte do mundo, vivendo agora como que enclausurado no seu quarto,
.
“ – o sofrimento é a nossa escola maior.” (pp. 29) relembra o velho nas visitas do médico.
.
as estranhas birras deste homem, vão no seguimento dos passados bizarros de todos eles. os enublados enredos que se vão intricando, ao mesmo tempo que se vão desfiando os passados de todos, inclusive do autoritário administrador da vila, mostram que em mais de trinta anos ainda restam muitas feridas da colonização, e também da guerra civil. contudo, ali há sempre a esperança renovada,
.
“ – Cure-me de sonhar doutor.
- Sonhar é uma cura.”
(pp.16 e 17)
.
mia couto insiste nos jogos de palavras. é a sua mestria. é o seu talento inato, e por isso reserva-nos jogos de cintura com as palavras capazes de nos dar a certeza que vale a pena continuar agarrado à leitura,
.
“-Não é que seja infeliz. Eu não sou é feliz. […]
Quem tem medo da infelicidade nunca chega a ser feliz.”

.
depois presenteia-nos com acrescentos ao léxico já de si rico, que embora em menor número neste romance, não deixa de ser um poder de reinvenção da escrita assinalável do autor, “lagrimejar”(pp.53), “subterfugitivo”(pp. 56), “canguruando pelas ruas” (pp.57) ou “garinpeirando o chão” (pp. 75) ou mesmo “tantíssimamente” (pp. 78). temos outras como “adentrar” ou também “artmosfera”.
.
entretanto vamos vivendo entre o ar pesado da rua, um cemitério onde as flores que se arrancam se transformam em braços, entre um quarto escuro com o velho bartolomeu lá dentro e uma casa onde se encontram sussurros pelos cantos. é que nesta terra o “barulho pesa, mas o não escutar é que cansa." (pp. 153)
.
oiçam pois este romance com a voz interior dos vossos olhos.
.
.
outras citações,
.
“A idade é uma repentina doença: surge quando menos se espera, uma simples desilusão, um desacato com a esperança.. Somos donos do Tempo apenas quando o tempo se esquece de nós.” (pp. 65)
.
“- O primeiro milho é para os donos dos pardais.” (pp. 77)

.
“- Não é tabaco que a gente consome. A gente fuma é a tristeza.” (pp. 78)

.
“-Você não me amou o suficiente,
-Para si não há nunca suficiente.
Não era só para ele que não bastava. O suficiente é para quem não ama. No amor, só existem infinitos.” (pp. 99)

.
“ - O tempo é o lenço de toda a lágrima” (pp. 154)

.
“Sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança contra um destino que é sempre tardio e pouco.” (pp. 155)

Powered by Blogger