fontes de inspiração

literatura fontenária do mês


venenos de deus remédios do diabo
mia couto, caminho – 2008

[7,5/10]


entre áfrica e portugal continuará a existir uma relação umbilical. a prosa romanceada não poderá fugir a essa genética centenária que nos corre nos dedos quando escrevemos sobre as relações dos povos. o moçambicano mia couto volta a esse tema no seu último romance. venenos de deus, remédios do diabo, é um romance que nasce da partida de um médico português na procura de uma mulher que conheceu em lisboa. vai vivendo naquela terra (vila cacimba) perdida no continente africano, servindo a povoação local e um casal (dona munda e bartolomeu sozinho), casal este progenitor da bela deolinda, razão pela qual o médico viajou para esta terra.
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a história é um desfilar dos temas recorrentes. bartolomeu sozinho serviu em tempos um barco português como mecânico, conheceu portugal e uma parte do mundo, vivendo agora como que enclausurado no seu quarto,
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“ – o sofrimento é a nossa escola maior.” (pp. 29) relembra o velho nas visitas do médico.
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as estranhas birras deste homem, vão no seguimento dos passados bizarros de todos eles. os enublados enredos que se vão intricando, ao mesmo tempo que se vão desfiando os passados de todos, inclusive do autoritário administrador da vila, mostram que em mais de trinta anos ainda restam muitas feridas da colonização, e também da guerra civil. contudo, ali há sempre a esperança renovada,
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“ – Cure-me de sonhar doutor.
- Sonhar é uma cura.”
(pp.16 e 17)
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mia couto insiste nos jogos de palavras. é a sua mestria. é o seu talento inato, e por isso reserva-nos jogos de cintura com as palavras capazes de nos dar a certeza que vale a pena continuar agarrado à leitura,
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“-Não é que seja infeliz. Eu não sou é feliz. […]
Quem tem medo da infelicidade nunca chega a ser feliz.”

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depois presenteia-nos com acrescentos ao léxico já de si rico, que embora em menor número neste romance, não deixa de ser um poder de reinvenção da escrita assinalável do autor, “lagrimejar”(pp.53), “subterfugitivo”(pp. 56), “canguruando pelas ruas” (pp.57) ou “garinpeirando o chão” (pp. 75) ou mesmo “tantíssimamente” (pp. 78). temos outras como “adentrar” ou também “artmosfera”.
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entretanto vamos vivendo entre o ar pesado da rua, um cemitério onde as flores que se arrancam se transformam em braços, entre um quarto escuro com o velho bartolomeu lá dentro e uma casa onde se encontram sussurros pelos cantos. é que nesta terra o “barulho pesa, mas o não escutar é que cansa." (pp. 153)
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oiçam pois este romance com a voz interior dos vossos olhos.
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outras citações,
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“A idade é uma repentina doença: surge quando menos se espera, uma simples desilusão, um desacato com a esperança.. Somos donos do Tempo apenas quando o tempo se esquece de nós.” (pp. 65)
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“- O primeiro milho é para os donos dos pardais.” (pp. 77)

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“- Não é tabaco que a gente consome. A gente fuma é a tristeza.” (pp. 78)

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“-Você não me amou o suficiente,
-Para si não há nunca suficiente.
Não era só para ele que não bastava. O suficiente é para quem não ama. No amor, só existem infinitos.” (pp. 99)

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“ - O tempo é o lenço de toda a lágrima” (pp. 154)

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“Sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança contra um destino que é sempre tardio e pouco.” (pp. 155)

1 Response to "fontes de inspiração"

  1. Teté says:

    Ah, gostei! Especialmente desse apontar a dedo as reinvenções do português, que li quase sem reparar como são belíssimas.

    Enfim, um outro prisma, um outro ponto de vista, mas numa certeza concordamos: Mia Couto é um mestre da escrita!

    Acho que vou aproveitar uma dessas citações, para pôr lá no meu canto... :)

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